Você escolhe o que quer ou só repete o roteiro que escreveram para você?

Tem uma frase que quase todo mundo diz com orgulho: "Eu sei o que eu quero."

E parece verdade. A faculdade foi você que escolheu. A profissão também. O jeito de morar, de se relacionar, até a ideia que você tem de "uma vida bem-sucedida". Tudo com cara de decisão livre, pensada, sua.

Mas deixa eu te provocar um pouco: e se boa parte do que você chama de "vontade" for, na verdade, costume herdado?

Não estou dizendo que você é uma marionete. É algo mais sutil, e por isso mais difícil de engolir: ter feito uma escolha não quer dizer, automaticamente, que foi você quem escolheu.

A voz que ninguém assina

Pense em algumas frases que moram na sua cabeça:

  • "Dinheiro não nasce em árvore."
  • "Isso não é pra gente como a gente."
  • "Primeiro a obrigação, depois a diversão."
  • "Quem muito quer, nada tem."
  • "Homem de verdade faz assim." / "Mulher de verdade faz assim."

De quem é essa voz? Se você tentar seguir o fio, provavelmente vai ouvir o tom da sua mãe, do seu pai, de uma avó, de um professor, de um chefe antigo. Às vezes é a voz de uma época inteira.

O curioso é que, com os anos, essas frases perdem o sobrenome. Deixam de soar como "o que minha mãe pensava" e passam a soar como "o que eu penso". Viram verdade pessoal. Viram você.

Ninguém te entregou um papel dizendo "esse é o roteiro da sua vida, siga sem perguntar". Foi bem mais discreto. Foi um pouquinho por dia, durante anos: um olhar de aprovação aqui, um silêncio de decepção ali, um elogio para certos comportamentos, uma frieza diante de outros.

Como o roteiro vai sendo escrito sem ninguém perceber

Quando somos crianças, a gente não tem como separar ideia boa de ideia ruim. Simplesmente absorve. E absorve, principalmente, o que parece garantir uma coisa essencial: ser aceito.

Criança aprende rápido o que faz os adultos sorrirem e o que faz eles se afastarem. Se ser "a responsável" rendia carinho, ela entende que vale por ser responsável. Se mostrar tristeza incomodava a casa, ela entende que sentir atrapalha. Se nota boa trazia orgulho, ela entende que amor se ganha com resultado.

Ninguém decide isso de propósito. É um combinado silencioso: "Se eu for assim, vão me querer por perto."

O problema é que esse combinado continua valendo décadas depois, mesmo quando já não precisamos dele. A criança cresceu, tem emprego, conta no banco, opinião própria. Mas por dentro ainda tem alguém tentando garantir aprovação com as regras de quando tinha seis anos.

E aqui está o ponto central: a gente costuma confundir "o que me fazia ser aceito" com "quem eu sou".

O disfarce perfeito: a escolha que parece livre

Se o roteiro fosse óbvio, seria fácil enxergar. Ele resiste porque vem disfarçado. Olha só como aparece no dia a dia:

Quem escolheu a carreira "segura". Diz que gosta de estabilidade. Mas será que gosta mesmo, ou aprendeu que arriscar é perigoso porque cresceu vendo a família apertada?

Quem nunca para. Diz que "é do tipo ativo, não sabe ficar parado". Mas será que é jeito de ser, ou medo de que, parando, vá sentir que não vale nada?

Quem sempre cede nas relações. Diz que "é na paz, não gosta de briga". Mas será que é paz, ou é aquele velho medo de ser deixado de lado se discordar?

Quem vive o sonho de outra pessoa. O diploma que a mãe não pôde ter. O negócio que o pai queria deixar de herança. A pessoa jura que também sonhava com aquilo. Talvez sonhasse. Ou talvez tenha aprendido a sonhar assim.

Repare: em nenhum desses casos tem vilão. As escolhas podem até ter dado certo. A pergunta não é "deu certo?". A pergunta é: de quem era o desejo que te colocou ali?

O sinal que quase todo mundo ignora

Tem uma pista simples de que talvez você esteja seguindo um roteiro: aquele cansaço que o descanso não resolve.

Quando a gente vive algo que é realmente nosso, mesmo sendo difícil, existe uma energia diferente. O corpo cansa, mas por dentro não esvazia. Quando a gente está interpretando um papel, o cansaço é outro: é o desgaste de quem passa o dia inteiro se sustentando em uma imagem.

Outras pistas pequenas:

  • Você conquista algo que "devia" te deixar feliz e sente um vazio estranho.
  • Você sente inveja de quem faz escolhas diferentes e, logo em seguida, julga essa pessoa de irresponsável. Muitas vezes o julgamento é só o desejo escondido de cara fechada.
  • Quando alguém pergunta "o que você quer?", você pensa primeiro no que seria aceitável.
  • Você diz "eu tenho que" muito mais do que "eu quero".

Nada disso prova coisa alguma. São só pequenas frestas por onde a pergunta consegue entrar.

Olhar o roteiro não é virar as costas para quem o escreveu

Aqui costuma aparecer uma resistência justa: "Então tudo o que meus pais me ensinaram estava errado?"

Não. E essa parte é importante.

Quem escreveu o seu roteiro quase sempre fez o melhor que podia com o que tinha. Seus pais e cuidadores também receberam roteiros de outras pessoas, que receberam de outras. Muito do que chegou até você era proteção, amor e sabedoria de quem sobreviveu a tempos difíceis.

Olhar o roteiro não é rasgar. É ler com calma e perceber quais falas combinam com você e quais ficaram ali só porque nunca ninguém parou para perguntar.

Existe uma diferença enorme entre duas pessoas que fazem exatamente a mesma coisa:

  • Uma faz porque é assim que se faz.
  • A outra faz porque olhou, pensou e concluiu que faz sentido para ela.

Por fora, parecem iguais. Por dentro, vivem vidas completamente diferentes. A segunda é dona do que faz. A primeira só repete.

O que muda quando você percebe

Ninguém avisa, mas perceber o roteiro costuma incomodar antes de libertar.

De repente você vê que algumas certezas eram emprestadas. Que certos objetivos eram de outra pessoa. Que alguns medos nem eram seus. Pode vir tristeza, raiva, uma sensação de "perdi tanto tempo".

Só que, nesse instante, algo importante já aconteceu: agora existe um você que está olhando o roteiro. E quem olha já não está inteiro dentro dele.

Esse espacinho, por menor que seja, entre o impulso automático e o que você faz com ele, é onde mora a liberdade de verdade. Não a de filme, de largar tudo e mudar de vida da noite pro dia. Uma liberdade mais quieta: a de escolher com consciência até aquilo que você decidir manter.

Porque, no fim, a escolha mais livre nem sempre é fazer diferente. Às vezes é seguir pelo mesmo caminho, mas agora de olhos abertos.

Perguntas para ficar com você

Não tem resposta certa nem tarefa. São só perguntas para deixar por perto nos próximos dias, sem pressa:

  • Quais frases eu mais repito sobre "como a vida funciona"? Eu lembro de onde elas vieram?
  • Em quais áreas da minha vida eu sinto que estou cumprindo e em quais sinto que estou vivendo?
  • Se ninguém fosse me aprovar, me julgar ou me comparar, o que eu continuaria escolhendo? E o que largaria?
  • Qual foi a última vez que desejei algo e, antes de sentir o desejo inteiro, já comecei a explicar por que não ia dar certo?
  • Quem eu tenho medo de decepcionar?
  • Se eu pudesse sentar ao lado da criança que aprendeu essas regras, o que eu diria a ela hoje?

Talvez você descubra que a maior parte do seu roteiro é mesmo seu. E tudo bem.

Talvez perceba que algumas páginas pedem para ser reescritas. E também tudo bem.

O que importa é que, daqui para a frente, a caneta esteja na sua mão.

Para ir mais fundo:

Livro/Conceito: O Drama da Criança Bem-Dotada — Alice Miller (Mostra como muita gente cresce moldando quem é para agradar quem cuidou dela e, aos poucos, se afasta do que realmente sente e deseja.)

Livro/Conceito: Em Busca de Sentido — Viktor Frankl (Defende que, mesmo sem escolher tudo o que nos acontece, ainda somos livres para escolher como encarar a vida e o que fazer com ela.)

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Carlos de Lacerda

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